Lagartos peçonhentos (Lagartos venenosos no Brasil?)

13/07/2011 13:53

Em algumas regiões do Brasil, há crenças de que alguns lagartos possuem veneno e, inclusive, são capazes de inoculá-lo, à semelhança das serpentes peçonhentas. Entre as espécies relacionadas a estas crenças estão: as lagartixas de parede (Hemidactylus sp.), os calangos-cegos (Polychrus sp.), os calangos-lisos (Diploglossus sp.), entre muitas outras. Abaixo, seguem alguns exemplos de concepções comuns sobre estes lagartos:

As bribas entram nas gaiolas, à noite, e envenenam a água dos passarinhos”.
Calango cego, quando morde uma pessoa, é pior que cobra cascavel”.
Calango-liso é tão mal, que quando cresce, vira cobra”.

A última concepção refere-se a Diploglossus lessonae, espécie de corpo alongado e cilíndrico, com acentuada redução apendicular (ROCHA, 1994), que institui uma interessante crença nos sertões, citada por Vanzolini et al. (1980). Segundo Vanzolini et al. (1980), as características deste animal fazem com que o povo creia que, com o crescimento, este lagarto torne-se uma serpente. Acrescentam, ainda, que esta crença é reforçada pela ocorrência frequente de exemplares com mutilação cicatrizada de um ou mais membros. Além disso, estes lagartos, às vezes, locomovem-se comprimindo os membros junto ao corpo, serpenteando habilmente semelhante a uma serpente, o que poderia dar sustentação a esta crença.

Diploglossus lessonae. Foto: Daniel Passos.


Embora estas concepções figurem amplamente no imaginário popular de diversos grupos humanos, rurais e urbanos, por todo o país, a comunidade científica fornece evidências, substanciais, que desmistificam estas crenças.

Em todo o mundo, só existem três espécies de lagartos peçonhentos (que produzem e inoculam veneno): duas espécies do gênero Heloderma que ocorrem no Sudoeste da América do Norte, os renomados monstros de Gila (BEAMAN; BECK; MCGURTY, 2006), e o famoso dragão de Komodo (Varanus komodoensis), a maior espécie de lagarto vivente, cuja distribuição natural é limitada a algumas ilhas na Indonésia (FRY et al., 2009).

As duas espécies de helodermatídeos peçonhentos viventes são o Monstro de Gila (Heloderma suspectum) e o Lagarto de Contas (Heloderma horridum), embora o registro fóssil apresente evidências de outras espécies co-relacionadas com a mesma capacidade, como o gênero Paraderma. É importante frisar que ao contrário das serpentes, em que o veneno é inoculado por dentes maxilares, nestes lagartos os dentes inoculadores são mandibulares, ou seja, são localizados na arcada dentária inferior. Outra importante curiosidade a respeito dos Monstros de Gila, é que estudos recentes descobriram frações específicas de sua saliva com propriedades para o tratamento de diabetes, estabelecendo benefícios diretos desta espécie para a sociedade humana.

Gila Monster- http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Reticulate_Gila_Monster.jpg

O dragão de Komodo (Varanus komodoensis) pertencente à família dos lagartos monitores (Varanidae), foi descoberto e descrito há mais de cem anos e, ao longo deste tempo, tem se tornado uma das espécies de lagarto mais famosas do mundo. Até então, as conseqüências oriundas das mordidas dos dragões eram atribuídas apenas à atividade de bactérias simbiontes, que compunham sua microbiota oral, em especial Pasteurella multocida,uma espécie de bactéria altamente patogênica. Não obstante, somente em 2009, um grupo de pesquisadores encontrou evidencias factuais da produção e inoculação de veneno por estes animais (FRY et al., 2009), e assim, incluíram o dragão de Komodo no seleto grupo de lagartos verdadeiramente peçonhentos.

Dragão de Komodo- http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Varanus_komodoensis_(5).jpg

Por todo o exposto, verifica-se que não ocorre nenhuma espécie de lagarto peçonhento no Brasil. Deste modo, as concepções supracitadas são evidências da falta de informação e da existência de idéias equivocadas sobre os lagartos, na sociedade brasileira.

Assim, faz-se necessário que os conhecimentos científicos, especialmente aqueles mais relacionados à vida cotidiana da população “leiga”, sejam amplamente disponibilizados. A divulgação científica apresenta valor inestimável e precisa ser mais valorizada, afinal, um dos maiores objetivos da ciência é gerar informações sobre o mundo, que proporcionem o esclarecimento e a conscientização da sociedade, fornecendo-lhe subsídios para suas tomadas de decisão.

 

Fonte: blogdonurof.wordpress.com/2011/02/27/lagartos-peconhentos/